MIRO MARQUES: CEL. JOÃO BORGES, O GESTOR DO PROJETO DE FUNDAÇÃO DE ITORORÓ

 

 Por Miro Marques

 

          

João Borges da Rocha Neto, era filho de senhor de Engenho no município de Estância – Sergipe, passou sua infância e adolescência na terra natal, mas com a abolição da escravatura o engenho que herdara do seu pai, que já tinha sido do seu avô, ficou de fogo morto. João Borges, jovem de visão futurista, não via mais quaisquer perspectivas de vida no sertão sergipano, então decidiu pegar o que restou de sua herança que era algumas cabeças de gado e vender para aventurar a vida em outras pirambeiras.

Com esse pensamento, no início dos anos 10, do século XX, acompanhado do seu amigo João Alves de Andrade, seguiu viagem rumo a Itabuna, Sul da Bahia, onde o destino lhe reservaria um futuro promissor. Desembarcando do navio no Porto de Ilhéus verificaram que o dinheiro havia se acabado, mas como o destino era Itabuna, os jovens aventureiros seguiram viagem a pé até àquela cidade Grapiúna, a procura de um tio de João Borges que era Coletor Federal e genro do Sr. Paulino Vieira, morador antigo na cidade de Itabuna e bastante conceituado junto ao coronelismo do Sul Baiano. Cel. Paulino Vieira também era proprietário de um grande armazém de secos e molhados e foi ali que os dois Joãos conseguiram emprego. Tempos depois, por transação comercial, João Borges adquiriu o armazém em que trabalhava, mas João Alves de Andrade continuou trabalhando com ele, tendo a partir dali, João Borges como seu amigo patrão.

As coisas melhoraram, João Borges ganhou muito dinheiro e começou investir na agricultura da região. O novo comerciante fornecia mercadorias o ano inteiro para os agricultores da região e só recebia o pagamento no fim do ano, muitas vezes, com a produção agrícola: cacau, café, cereais, etc. Com a renda do comércio de secos e molhados e o lucro dos produtos que recebia como pagamento das mercadorias fornecidas, João Borges ficou muito rico adquirindo várias propriedades rurais que, a maioria delas, ainda pertence aos seus herdeiros.

Casou-se com Dona Marieta Ribeiro Borges, com quem teve duas filhas: Maria de Lourdes e Nair Borges.  João Borges já era também coronel do cacau quando resolveu criar gado. Mas o Sul do Estado da Bahia era literalmente frio para esse tipo de investimento. Naquela época estava começando o desbravamento da região colônia, lugar propício para um bom criatório. Foi então que João Borges enviou seu companheiro de viagem, amigo e colega de trabalho, agora, também administrador das suas fazendas, João Alves de Andrade, a região do Colônia para lhe comprar bastante hectares de terras.

 

João Alves gostou da região e adquiriu mais de 3.500 hectares de floresta e titulou-os em nome do Coronel e dos seus familiares.

Formando ali a Fazenda Cabana da Ponte que mais tarde tornou-se uma fazenda modelo na região do colônia e deu origem a fundação de Itororó.

Imediatamente o Coronel importou gado do Uruguai e cedo formou seu plantel PO da raça zebuína. Foi também pioneiro em criatório de bufalinos na região, esses animais, muitas vezes, enfileirados, percorriam algumas ruas da cidade, causando medo a população, porém, sem atacar quem quer que seja, eles retornavam à Fazenda.

A Fazenda Cabana da Ponte sempre deu de tudo para melhorar a condição de vida dos seus trabalhadores: Canavial, engenho, fabricação de cachaça, melaço e rapadura, vacas de leite, laticínio produzindo requeijão e manteiga, criatório de porcos, tudo isso, tinha com fartura. As pessoas carentes recebiam leite e outros produtos de graça, todo dia, o ano inteiro. Também eram fornecidos derivados de leite e toucinho para o Colégio das Freiras em Salvador, gratuitamente. Uma vez por mês era abatida algumas vacas e distribuídas com a pobreza. Isto, sem falar no grande número de empregados, contratados pela Fazenda Cabana da Ponte, que defendiam ali o sustento e o futuro da família.

O projeto de fundação do povoado de Itapuy contou com todo o apoio moral e financeiro do Cel. João Borges da Rocha Neto. – “Homem paciente, sem mesquinharia, inimigo do egoísmo, seu João Borges era um homem extraordinário” – disse o Dr. Sinval Palmeira, para este biógrafo, em entrevista gravada em janeiro de 1993.

O Cel. João Borges da Rocha Neto que nasceu no dia 08 05 1885, era filho de João Borges da Rocha Filho e de América Maria Rocha. Faleceu no dia 20 de janeiro de 1961 e seu corpo foi sepultado na cidade do Salvador depois trasladado para a capelinha da Fazenda Cabana da Ponte. Dona Marieta Ribeiro Borges, que era esposa do Cel. João Borges, nasceu a 14 05 1895 e faleceu em 27 04 1958, seu corpo repousa no descanso eterno, ao lado da filha Nair Ribeiro Borges na mesma capelinha…

    FATOS INTERESSANTES OCORRIDOS NA VIDA DO CEL. JOÃO BORGES:

Certa vez dois ladrões invadiram a casa da sede e roubaram alguns objetos pessoais. Poucos dias depois o Delegado Edgar Ribeiro, de Bandeira do Colônia, efetuou a prisão dos meliantes e foi depressa ao encontro do Coronel levando os objetos do roubo recuperados. E para se engrandecer diante do Coronel, falou: “ai está chefe, os objetos que os ladrões lhe roubaram, os dois estão presos e eu os quebrei na pancada”. Imediatamente o Coronel retrucou dizendo: “fez muito mal, já havia recuperado o objeto do roubo, não precisava mais bater nos coitados”.

Outro dia o Coronel cavalgava de Itororó para a fazenda junto a João de Atanázio, seu vaqueiro de confiança, quando de repente apareceram à beira do caminho dois sacos de compras que certamente alguém havia perdido. Atanázio apeou do cavalo e pegou os dois sacos. O coronel lhe advertiu: “pegue apenas um, Atanázio, e deixe o outro para outra pessoa também achar”. Mais adiante encontraram um trabalhador da fazenda em disparada à procura dos sacos de compras que dona Marieta, esposa do Coronel, tinha perdido. Seu João Borges então disse ao rapaz: “ali atrás tem um saco, o outro é de Atanázio, foi ele que achou”. É Lógico que Atanázio entregou o outro saco de compras para Dona Marieta.

Em Salvador o Coronel trafegava pelas ruas apertadas da baixa dos sapateiros no seu velho Lincoln, ao lado do genro, o Dr. Sinval Palmeira, tendo ao volante o motorista Zé Ventinha. O carro enguiçou, atrapalhando o trânsito, e o Dr. Sinval reclamou: “mas Coronel, vende este carro velho e compra um novo. O Senhor já gastou mais de dois contos de réis consertando ele”. “E você Sinval, já viajou mais de duas mil vezes pongado nele! – disse o coronel em tom de brincadeira”.

Pedro Brechó foi gerente da Fazenda Capinhão, com direito dado pelo próprio Coronel João Borges a criar algumas cabeças de gado. Um puxa saco, certo dia, olhou para o Coronel e disse: “seu João, Pedro Brechó está ficando rico criando gado em sua fazenda”.

O Coronel respondeu: “crie você também um bezerrinho para tirar o olho gordo de cima do gado de Pedro”.

Quando alguns caçadores ou lenhadores pediam autorização ao Coronel para caçar ou tirar lenha na fazenda, o “Coronel dizia sempre não. E explicava: “vocês são muitos e quem vai sempre ver vocês por ai é Caboclo, meu gerente, e ele não vai saber qual de vocês foi autorizado por mim. Portanto, vocês continuem pegando lenha e matando suas cacinhas às escondidas. Tá bom assim?”.

Outro fato interessante: quando um morador de Itororó estava endividado e não tinha mais condições de permanecer na cidade, procurava o Coronel para vender-lhe a única casa que tinha. O Coronel depois de saber os verdadeiros motivos que levavam aquele cidadão a vender a única casa de morada, fazia-lhe uma oferta. Fechado o negócio, o Coronel então dizia: “agora que você já tem dinheiro para pagar suas contas, pague a quem você está devendo e continue morando na casa, agora, de graça até poder fazer outra casa para você. Tá bom assim?”.

Depois da morte do Coronel João Borges o Dr. Sinval Palmeira, fez a doação definitiva de todas casas de moradia que se encontravam  na situação de concordata.

Outro fato que deve ser levado em conta, foi quando o Coronel estava bastante doente e mesmo sabendo que seu engenho velho e a fabricação de cachaça já estavam dando prejuízo, ele fez questão de mantê-los em funcionamento, apenas para satisfazer o seu ego. Então, um dia, o Dr. Sinval falou: “mas Coronel, o senhor não bebe cachaça, esse engenho velho está dando prejuízo, vamos acabar com isso?”. O Coronel respondeu: “Deixa, Sinval. Eu sei que não está dando lucro, mas eu tenho uma reminiscência. Em minha terra, quando eu era jovem, só era gente importante quem tinha um engenho funcionando.” Por isso, sua vontade foi feita enquanto vida ele teve.

Na última conversa que tivemos com o Sr. Antonio Leandro da Anunciação, pessoa que viveu desde criança com o casal João Borges e Marieta Ribeiro Borges, datada de 24 09 2009, obtivemos informações interessantes que enriquecem os dados históricos biográficos ocorridos na vida deste nobre benemérito de Itororó. A primeira: ele tinha um cacoete que iniciava qualquer conversa. Ele só iniciava suas palavras dizendo: huum. E a segunda é que ele tinha por prazer todas as tardes quando estava na Fazenda Cabana da Ponte, convidar Dona Marieta, sua esposa, para pescar traíras no açude dos fundos da sede, que lhe era reservado para o lazer, a fim de fazer um belo escaldado de traíra fresquinha para o juntar acompanhado de forte molho de pimentas passarinho com bastante cebola e coentro verde…

Antonio é detentor do porretinho de madeira (Pitiá), em perfeita forma, que foi usado pelo Coronel nos seus últimos dias de vida quando a falta de saúde já fazia suas pernas cambalearem e também duas flechas originais, usadas pelos índios que caçavam por estas redondezas.

Falava-se muito em lendas que envolviam o Coronel e seus animais, mas, Antonio não confirmou nenhuma delas e nós não acrescentamos a este relato porque, esses, são detalhes para bons romancistas e, ou, outros tipos de historiadores…


2 Comentários

  1. Meire disse:

    Miro sempre nos brinda com seus eloquentes relatos que nos deixa em extase pela capacidade de, em uma so cronica enriquecer nosso cabedal de conhecimento concernentes a nossa historia. Sou admiradora de seu trabalho. O que seria de nos se nao tivessemos o Miro para conhecermos nossa historia em sua génesis e integridade?

  2. Edcarlos Locutor disse:

    Miro Marques.
    Sou um admirador do seu trabalho. você enriquece a nossa cultura Bahiana.
    Tem riqueza de detalhes as suas crônicas que o leitor cria até a dos personagens no decorrer da leitura.

    Parabéns conterrâneo Historiador ,artista …. Miro Marques.

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