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Itororó

GERÔNCIO LACERDA BRITO POR MIRO MARQUES

Miro Marques

 

Este relato histórico biografico tem origem nas pradarias do município de São Gonçalo dos Campos – Bahia, Recôncavo Baiano e se remonta à década de 30, quando nasceu da união familiar do Sr. Henrique Brito e Dona Raquel Lacerda de Brito, o segundo filho que recebeu o nome de Gerôncio na pia batismal e no Cartório do Registro Civil das Pessoas Naturais confirmou-se Gerôncio Lacerda Brito.

Esse menino acompanhado dos pais, cedo se mudou para a cidade de Vitória da Conquista, por vontade própria dos seus genitores, não só para conhecer o sertão da ressaca, terra de valentes coronéis, mas também objetivando beliscar um pedacinho das terras dos índios Mongoiós e Imbarés. Os mesmos gentios que guerrearam contra o capitão português João Gonçalves da Costa, seu filho Raimundo Gonçalves da Costa, seu sogro João da Silva Guimarães e o companheiro Antônio Dias Miranda em várias batalhas contra a determinação da Corte Real.

Na região do Guigó, (José Gonçalves), o adolescente Gerôncio Brito  começava sua vida de criador de gado vendo seu pai desenvolver um pequeno criatório de gado pé-duro. Mais tarde, Seu Henrique vendeu tudo que tinha por lá e foi morar às margens do Rio Pardo, próximo a região do Palmeirão. Ali, o já adolescente Gerôncio se desgarrou da barra da calça do seu pai e começou seu próprio negócio comprando e vendendo uns bezerrinhos que os amigos lhe confiavam.

O jovem Gerôncio cedo se casou com a senhorita Maria Edna Meneses e teve seis filhos: três homens e três mulheres. Na medida em que os meninos foram crescendo e atingindo a idade escolar, Gerôncio foi pensando em encaminhá-los a um grau de escolaridade mais elevado, pois esse era seu desejo, ver todos seus filhos formados em curso superior. Comprou uma casa na cidade e pôs a família para morar a fim de facilitar o estudo das crianças até concluírem a faculdade.

Gerôncio foi crescendo, crescendo e se aprumando na vida empresarial, no ramo de boiadeiro, como produtor rural e expositor de gado de corte e leiteiro na região da pecuária até Vitória da Conquista. Gerôncio se tornou num homem muito conhecido e respeitado por todos como o maior expositor bovino da região sudoeste.

Frequentava todos os parques de exposições da Bahia e do Brasil. Porém, a vida de Gerôncio Brito tinha seus momentos de altos e baixos. De repente ganhava muito dinheiro, mas também rapidamente se quebrava.

Gerôncio Brito se estabeleceu também na região sul com grandes propriedades de cacau e gado. E aí, vivendo novas amizades, achou melhor separar da mulher do casal e se unir a uma grã-fina da região do cacau que viveu seus áureos tempos de luxuria e orgias viajando por todo o Brasil e até para o exterior.

Enfeitada de ouro, da cabeça aos pés, a grã-fina tinha camarim de luxo em todos os parques de exposições que frequentava. Tomava banho de loja, se perfumava e se cobria de joias estampando uma aparência de mulher chic que fazia português errar no troco ou turco dispensar a última prestação. Convidava os graúdos expositores para comer suculentos churrascos, carneiro de velame e carneiro a molho pardo, era uma verdadeira vida nababesca. Tinha criados e capatazes contratados especialmente para preparar a festa e servir com desvelo os seus convidados.

Esta equipe era tão bem aparelhada que o casal não se preocupava com nada, só mesmo em receber bem os seus convidados. Durante o período em que expunham em uma determinada cidade, comprava e vendia gado, recebia e fazia pagamento, sem ao menos ver um boi da boiada ou ir ao banco fazer uma proposta de empréstimo. Sua turma estava sempre apostos e preparada para qualquer situação. Valdelício Bodão era responsável pela cozinha, Dr. Vieira preparava as guias livre de brucelose e Eduardo Brito cuidava da contabilidade.

No fim das grandes oportunidades de negócios era só somar os proventos e deliciar-se de um belo Cruzeiro pelo Caribe ou longas viagens ao lado da madame “Pomadou” para compensar o tempo trabalhado e recompor as energias perdidas..

O ilustre expositor e pecuarista Gerôncio Brito se graduou tanto como empresário da pecuário e dos negócios de gado que montou uma empresa de transporte de gado composta de 8 carretas Scania Vabis, com licença para rodar em todo o Brasil.

Instalou também um escritório de transporte de gado a que deu o nome “Transgeomar Ltda.,” em Itapetinga dando serviços aos gaioleiros que se fichavam para transportar gado para os quatro cantos do país. E assim, Gerôncio Brito deu emprego e renda a mais de cem pessoas, direta ou indiretamente.

E também viveu a vida, na verdadeira expressão da palavra, vida de “Nababo”. Se iniciou na Loja Maçônica Obreiros do Areópago de Ibicaraí e participou de grandes reuniões sociais para escolha de candidatos a prefeito de Itororó já que seu irmão mais velho, Henrique Brito, chegou a ser vereador, prefeito de Itororó, deputado estadual duas vezes e federal também outras duas vezes. 

 Gerôncio Brito foi um homem que confiava em muitas pessoas que dele se aproximava. A prova disso ele tinha um motorista baixinho que ele mesmo o apelidou de Tim, que era o seu favorito para fazer viagens de cobranças de cheques de outras praças, do Estado e do país, porque o danadinha dava sorte e nunca voltava sem o dinheiro.

Também a este, ele confiava levar pagamentos em dinheiro vivo para qualquer cidade. Tim contou que Gerôncio lhe confiou um chegue no valor de Cr$ 1.500.000,00 Hum  Milhão e Quinhentos Mil Cruzeiros, naquela época,  para sacar no Banco do Nordeste em Itabuna e fazer um pagamento no Frigorífico Frimusa em Teófilo Otoni – MG. Isto porque, naquele tempo, se demorava um bom tempo para se fazer a compensação de um cheque, por isso, ele preferia mandar seu portador, de confiança levar o dinheiro em espécie, a depositar o cheque. Isto era possível porque naquele tempo ainda não se corria tanto perigo ao conduzir dinheiro em espécie ou cheques.

Mas como diz o samba de Cauby Peixoto, intitulado Perdão Mangueira: “Pra Gente se levantar, primeiro tem que cair, antes se aprende a chorar e depois a sorrir”, Gerôncio Brito caiu muitas vezes da escada da vida, chorava um pouco, sacodia a poeira, mas depois se levantava, equilibrava e tocava o barco pra frente.

Certa vez ele olhando para uma senhora que foi doméstica em casa dos seus pais e também foi “cacho” do velho, mas que muito ajudou a criar com zelo e carinho a ele e a seu outro irmão mais velho, a senhora estava vivendo uma vida difícil, ele olhou para seu motorista e falou: “Você não ver, muitas vezes a gente tropeça na vida e não sabe por que caiu. A esta velha eu devo muito favor de quando eu era criança. Ela se preocupava muito comigo e com Henrique, meu irmão”. Na mesma hora meteu a mão no bolso e puxou algumas notas de um bom valor e deu para aquela senhora que lhe agradeceu chorando. Naquele momento, o motorista não conseguiu conter as lagrimas e também chorou, vendo aquele gesto de humanidade que praticara seu patrão.

Todavia, com Gerôncio Brito aconteceu como naquela canção de Vicente Celestino, “o Ébrio”, onde o compositor relata a vida de um artista que foi caindo dos grandes teatros para os de mais baixas categorias, até levar uma tremenda vaia em pleno picadeiro de um circo. Gerôncio também foi caindo da posição de alto empresário para uma pessoa comum, não conseguia mais comprar grandes boiadas, passou a trocar o wisque importados das safras de 12, 18 e 24 anos, por uma cervejinha e depois por uma simples piguinha temperada com cidreira ou erva doce.

 Nos seus últimos dias, lutou muito para conseguir um humilde benefício pecuniário com amparo na Lei Orgânica da Assistência Social que nem chegou dele gozar por muito tempo. Gerôncio Lacerda Brito faleceu na cidade de Salvador sob cuidados da sua ex esposa e dos seus filhos e lá foi sepultado não só o seu corpo, mas também, o seu nome.

Hoje ninguém mais fala no rei das exposições de gado. Quero crer que muitos dos seus amigos daquelas noites de orgia, sequer, têm conhecimento deste fato. Mas onde quer que você se encontre, descanse em paz “velho caiana” como você, na brincadeira, chamava seus amigos. Porque cá no mundo dos vivos ainda tem alguém que você um dia ajudou com um emprego ou emprestando seu carro para socorrer um doente E esses amigos muito rezam pela sua salvação.

E no mais é como diz Chico Buarque de Holanda “Meu caro amigo agora apareceu um portador, te mundo noticias dessa vida: Aqui na terra tão jugando futebol, tem muito samba, muito choro e rock rol, um dia chove noutro dia bate sol, mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta, muita mutreta pra levar a situação, mas a gente vai levando de teimoso e de pirraça, mas a gente vai bebendo porque também sem a cachaça, ninguém segura esse rojão….   

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