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Cultura

JOSÉ DIAS PEREIRA O POPULAR ZÉ PELADO  

Por Miro Marques

 

 

Decorria a década de 30 do século XX, quando Itapuí do Colônia já havia realizado a primeira feira livre em 1928, celebrado a primeira Missa em 1931, seu nome já se destacava na redondeza como o Novo Eldorado, por aqui chegavam três pequenos aventureiros, um jovem e dois adolescentes, órfãos de pai e mãe, oriundos do Comercinho do Major Fulgêncio, que depois virou cidade de Iguaí ou “Fonte de Beber Água”.

José o mais velho, João o do meio e Ana a caçula. Aqui chegando, todos imediatamente ganharam um apelido.  José ficou conhecido por Zé Pelado, João por João Ponga e Ana era Ana Ponga. José deve ter recebido esse nome porque só andava sem camisa e usava uma cirola sem bolsos na frente, mas tinha duas algibeiras atrás onde ele colocava um pedaço de fumo de corda, uma caixa de fósforo, um canivetinho para picar o fumo, um pacotinho de palha de milho cortada para enrolar o cigarro e o dinheiro que arrecadava dos seus serviços prestados à pequena população. Com chuva ou com sol, diuturnamente, seu traje era esse. Os outros dois não se sabe de onde veio o apelido.

Aqui chegando ou aqui estando como dizia o velho Pajé Agostinho Costa Santos, eles recorreram ao fundador João Alves de Andrade e conseguiram um pedacinho de chão na antiga Rua da Cancela e ali construíram uma casinha de taipa onde moraram até o fim da vida.

Ana Ponga, não falava coisa com coisa, parece que era meio fraca da cachola, mas raciocinava o suficiente para saber fazer a comida, cuidar da casa e lavar a roupa dos irmãos. Ela até conseguiu um namorado e teve um filho que se chama Valmir, mas tem rumo ignorado.

Zé Pelado e João Ponga, sem nenhuma instrução escolar se aventuraram nas atividades mais comuns daquele tempo. João levantava bem cedo para levar água limpa, que pegava acima do povoado, para encher os tangues da burguesia. Primeiro usava uma lata na cabeça, depois conseguiu comprar um jeguinho e passou a fazer este serviço no lombo do pequeno animal .

Zé pelado, por sua vez, começou a prestar outro tipo de serviço, um pouco mais pesado, porem muito importante para a pequena comunidade de Itapuí. Ele tirava areia no Rio Colônia e entregava para os pequenos construtores da época, porque os mais abastados compravam seus produtos nos depósitos de Materiais de construção, ali já instalados. Zé Pelado também utilizava-se das costas de dois jegues para transportar areia, tijolos, pedras e outros materiais, enquanto que João Ponga, quando encerrava sua tarefa de encher os tanques das madames,. fornecia também água do rio para os construtores..

E assim eles viveram a vida terrestre em Itororó até dela partirem. No começo dos anos 70, o progresso traz um novo estilo de vida para Itororó. o prefeito consegue instalar água encanada e tratada para a população. A cidade vai ganhando, aos poucos,  dimensões de grandes povoações.

Os serviços prestados pelos jovens José e João vão ficando obsoleto, mas como dizia os mais velhos “Deus quando tira os dentes, enlanguesce a garganta para o individuo não morrer engasgado”,.

Eis que em 25 de março de 1971, o presidente Garrastazu Médici sanciona a Lei Complementar nº 11, garantindo aposentadoria ao trabalhador rural, foi quando Zé Pelado e João Ponga conseguiram o benefício que lhes garantiam meio salário mínimo a cada um. Assim, eles abdicaram do trabalho pesado que já se extinguia  para viverem uma vida mais amena.

João era mais vaidoso. Usava roupas coloridas bem berrantes, passava água oxigenada no cabelo para ficar loiro e usava bastante brilhantina Glostória que exalava um odor muito forte, onde ele passava o cheiro ficava impregnado. Segundo se falava muito, João era boiola, falava grosso quando estava contrariado e falava fino quando queria se debochar  Ele tinha muita admiração por Dozinho sapateiro, segundo ele, era porque Dozinho lhe comprava ingresso para o circo quando tinha um armado por ali.

Contam que certa vez, Dozinho sapateiro foi à Casa aonde moravam Zé e João e chegando lá bateu na porta e foi zé quem lhe atendeu. Dozinho então perguntou “ô Zé, João taí.”? Zé Pelado imediatamente respondeu com grosseria, “eu sei lá daquele descarado, aquele moleque deu para conduzir homem nas costas”.

Zé Pelado fora homenageado em vida pelo historiador Eduardo Brito que lhe fez uma reportagem no Jornal Gazeta Alternativa, cuja matéria teve por titulo: “O homem mais forte de Itororó e Bandeira”. Na matéria o nobre jornalista dizia que havia pesado o Zé e que só encontrou pouco mais de 22 quilos de pele, ossos, unhas e cabelos.

Mesmo assim o Zé Pelado tinha por dever, pelo menos duas vezes por semana, se apoiar em dois pedaços de pau e fazer o trajeto de quatrocentos metros, mais ou menos,  de sua residência até o centro comercial, no chamado mercado do peixe, onde gastava duas horas para ir e outras duas para voltar, afim de comprar uma cordinha de Acari do Rio Pardo. Pois, segundo ele, foi o melhor prato que já comeu em toda sua vida. _ Dizia ele –  “chego em casa trato esse peixe, passo um pouco de sal e coloco na brasa de papo pro ar e deixo queimar a casca, depois tiro a carne que sai inteirinha, preparo os temperos e faço um escaldado pra comer com molho de pimenta malagueta madurinha com coentro e cebolinha verde picados e ai é só saborear a melhor moqueca de todos os tempos”

José Dias Pereira nasceu a 19 de março de 1907 e viveu um pouco mais de cem anos. .os três irmãos também já estão em outo plano espiritual, mas seus corpos foram sepultados no cemitério de Itororó..

Assim se encerra o relato histórico de três desamparados da sorte que chegaram a Itororó sem parentes e aderentes, sem eira e sem beira, mas na sua singeleza ajudaram a construir a Itororó dos tempos idos e de forma honrosa e honesta escreveram seus nomes na história Desta Terra….

5 Comentários

  1. Eu me lembro, que trecho da Rua Ruy Barbosa ali próximo ao conselho tutelar era chamada de Rua de “Zé Pelado” por tão conhecido que o franzino Zé Pelado era.

  2. Sem duvidas , bem populares, de um coração puro, sem maldades, figura impar, exemplos de simplicidade e modo de viver franciscano, com certeza estao em um bom lugar. Fico feliz que o nosso historiador nao deixou passar em branco em suas profundas laudas seres humanos ícones de nossa Cidade. Eu sempre compactuei com a ideia que deveríamos ter um museu que retratasse bem nossa historia e quando faltasse objetos para o acervo, poderíamos pedir a colaboração de Vade Amaral com sua encantadora obra de arte

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