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DONA JOANA BORGES: UMA LÍDER ESQUECIDA

POR MIRO MARQUES

Fazendeira de muitos pés de café, cacau e algumas cabeças de gado, Dona Joana Borges dos Santos, chegou à região de Ribeirão de Dias, no município de Itororó, no inicio dos anos 40, oriunda de Ferradas – Itabuna – Bahia, trazida e protegida pelo Sr. Macolino Pé de Serra, pessoa a quem a jovem viúva, mãe de 5 filhos, três homens e duas mulheres, devotava total atenção e obediência, inclusive no campo político.

Cartomante dedicada, praticava Numerologia em toda a região onde previa o sucesso político de todos que a procuravam em épocas de eleições. Dona Joana Borges foi, enquanto era jovem, uma espécie de “Guru” politica.

Todo mundo queria se consultar com ela e tê-la do seu lado no período em que antecedia as eleições partidárias em Itororó e região, porque do lado que Joana Borges estivesse, não se perderia uma eleição, isso era só o que se ouvia falar nos quatro cantos do Município.

E assim, em períodos eleitorais, a estrada do Ribeirão de João Dias ou da sua casa residencial em Rio do Meio, virava formigueiro de pretendentes a cargos eletivos. Todos queriam saber as previsões de “Mãe Joana” e ganhar a sua simpatia e o seu apoio politico.

Com desprendimento de uma líder, dona Joana Borges enfrentou a vida de mulher mãe e pai ao mesmo tempo. Trabalhado para criar, exemplarmente, a sua prole naquele pedacinho de chão que seu amigo Marcolino Pé de Serra lhe havia dado com direito a usos e frutos, tempos depois lhe presenteando, definitivamente, com a escritura pública da dita fazenda.

Além da produção agrícola acima citada, Dona Joana também plantava feijão, mandioca, fazia farinha e produzia melaço de cana e tuda sua safra era absorvida pelo Sr.Almiro Franco forte comerciante de secos e molhados de Rio do Meio.

Ostentando, pois, uma invejável posição entre os produtores rurais, Dona Joana Borges criou uma fantasia própria um tanto inusitada. E todos faziam questão de reverenciá-la. Ela só ia a Rio do Meio fazer compras ou vender sua produção, montada em seu famoso cavalo castanho, trajando jaqueta de gabardine tipo paletó, lenço colorado ao pescoço, calça meio que bombacha gaúcha, chapéu ramezzoni e um baita de um revolver 38, na cintura que certamente, com o prestigio politico que desfrutava junto a sociedade, havia conseguido licença para portá-lo abertamente.

Mas o tempo passou de pressa, até que um certo dia, como diria o poeta nordestino João do Vale, Dona Joana Borges que viajava sempre apoiada na sela do seu cavalo castanho, “a mocidade lhe deixou, Dona Joana também deixou ela, a velhice montou em sua cacunda, o tarô caiu da sua mão, e sem perceber a notável velhinha, desmontou da sela”.

Este fato encontraria eco também no poema de Safo a poetisa grega,  décima Musa do mundo segundo Platão. “Assim como a noite persegue a rosada aurora, o implacável tempo também perseguiu Dona Joana até alcançá-la“. O cansaço físico a impossibilitou de participar das campanhas politicas dos seus compadres, comadres e amigos. Sem ser mais consultada como líder vidente, Dona Joana Borges ficou homiziada, esquecida e abandonada durante muitos anos em sua própria casa em Rio do Meio sem, sequer, uma visita amistosa dos políticos que ela tanto ajudara. Até que sua neta, Gerusa Borges, a levou para passar os seus últimos dias numa casinha humilde no Bairro da Úrbis em Itororó. Ali a outrora cartomante política esperou, pacientemente, o dia em que Deus a chamou para atuar em outra dimensão da vida.

Entre tantos políticos que Dona Joana Borges ajudara em suas caminhadas eleitorais, apenas um prefeito, José Meneses Lima, lhe prestara homenagem em vida. Construiu uma escola na zona rueal e estampou na faixada Prédio Escolar Joana Borges dos Santos que ainda funciona, cuja piratecnia inaugural ocorreu por conta da anfitriã, pois,das suas habilidades profissionais, uma era saber fabricar fogos de artifícios.

Veja você como a classe política é ingrata, Dona Joana Borges que era alvo de disputa entre a classe para saber de que lado ela estaria, quando mais precisou deles para somar no trajeto do seu cortejo fúnebre, apenas um vereador eleito Tiodomiro Marques, um ex-vereador Eduardo Brito e um postulante a vereador, na época, João Brito compareceram àquele momento que marcaria a sua última viagem nesta terra. Desta forma Dona Joana Borges foi enterrada e esquecida por todos que ela ajudou nas campanhas eleitorais.

Joana Borges, é hoje um nome esquecido por todos. Até no Cartório do Registro Civil das Pessoas Naturais do Distrito de Rio Meio onde ela mantinha seu endereço residencial ou no Cartório de Itororó nada foi encontrado com atinência ao seu registro de óbito. Grande foi a dificuldade para folhear os livros próprios e deles nada consta em referência ao seu registro de óbito. Ao que parece a nobre Senhora Joana Borges dos Santos fora sepultada apenas com o atestado que o médico fornece para constar a causa morte…

Uma coincidência pouco comum ocorreu no dia da morte de Dona Joana Borges. Os parentes comunicaram à filha mais velha que morava em São Paulo para vir urgente que Dona Joana, sua mãe, estava passando mal. A filha se apressou, pegou o primeiro avião e chegou a Itororó no mesmo dia. Mas quando viu que a sua mãe já estava desacordada para o mundo, instantaneamente desmaiou, foi socorrida no hospital de Itororó, mas não resistiu e acabou partindo junto com sua querida genitora para eternidade…

Tudo isso aconteceu na segunda metade da década de 80, mas a falta de documentos comprobatórios retardou a ação deste velho contador de historias em relação ao relato histórico biográfico de Dona Joana Borges dos Santos, mas, eis que agora, com a precisa participação dos amigos: Carleone, Miraldo e Agnaldo Come Quente nos foi possível pagar esta dívida para com a matriarca da família Borges dos Santos, em nome de todos os políticos que ela um dia ajudou a eleger. Esta é a nossa atrasada, mas justa homenagem a uma senhora viúva que fez história em Itororó…

6 Comentários

  1. Agradeço muito a lembrança de minha avó. Sou Ronalda, filha de Silvestre. Gostaria de contribuir com as histórias de minha avó. Parabéns pelo trabalho!

  2. Nossa que interessante nunca pude imaginar que veria a história de minha bisavó dps de tantos anos, porém a morte de minha avó relacionada na história não foi nos anos oitenta e sim no dia 13 de agosto de 1993, e ela não foi de avião e sim de ônibus, muito preocupada com a saúde de minha bisavó e com medo de não encontra la viva

    Muito obrigada ao repórter por compartilhar no acervo das memórias de Itororó, interessante que estava contando para meus filhos a importância dela , foi quando meu esposo resolveu pesquisar a história

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